Lua era uma jovem preta que, no século X, vivia em um importante vilarejo com seus pais. Certo dia, ela resolveu querer ganhar a vida a partir dos estudos e teve as portas das oportunidades fechadas em sua cara por uma sociedade que discriminava mulheres e pretos. Lua não entendia o por que das pessoas brancas terem acesso a direitos que a ela eram negados. Lua sonhava com uma realidade justa e igualitária, na qual todos seriam respeitados fossem quem fossem e a todos seriam oferecidas as mesmas possibilidades.

A história de Lua poderia ser apenas mais um conto medieval se eu não tivesse esquecido um “XI” na data acima.

O caso não aconteceu no século X, mas sim no XXI – acontece até hoje, para ser mais exato. O importante vilarejo é Curitiba e Lua é Luana D’Avila, uma mulher preta que batalha diariamente para receber o reconhecimento que merece em meio a uma sociedade que ainda fecha os olhos para a realidade e desigualdade que assombra o cotidiano das pessoas pretas.

Em 2014, foi instituído pelo governo do Brasil o Dia da Mulher Negra (25/07), a partir da Lei Nº 12.987. Assim como o Dia Internacional da Mulher, o objetivo não é festejar, é dar visibilidade para essa luta, conscientizando as pessoas a respeito da realidade e do preconceito enfrentado por essas mulheres por conta de gênero e cor de pele.

Então surgiu a questão entre a equipe da Nossa Causa: como falar sobre uma realidade que não vivemos? Como dar voz a essa causa? De que forma a mulher preta se sente representada? Como ela é vista e como ela quer ser vista na sociedade? Resolvemos chamar as protagonistas dessa história para uma conversa que estimulasse nossa empatia e compreensão, a fim de criarmos todo o conteúdo dessa campanha.

A ideia dessa campanha não é só que você entenda a origem do Dia da Mulher Negra, mas a importância dessa luta. É necessário que os privilegiados se coloquem como ouvintes para fazer parte da transformação e da busca por uma sociedade mais justa e igualitária para todos.

Perguntamos para as participantes do evento se elas reconheciam a data e então surgiu o questionamento:

Social Talks – A realidade da mulher negra,
realizado da sede da Nossa Causa
dia 07/07/18.

No Brasil, por muito tempo a sociedade evitou classificar as pessoas como pretas ou negras, como se isso fosse uma ofensa.

Por isso, termos como mulata, morena e parda são constantemente utilizados.

Um exemplo disso é o próprio censo realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, no qual existem três variações para a cor da pele: “branca”, “parda” e “preta”.

Dados do último censo nacional, realizado em 2016 pelo IBGE¹.

“Pardo não é cor de pele, pardo é um tipo de papel, eu sou preta.”

Muitas vezes expressões como “morena”, “mulata”, “negra”, “bronzeada” são usadas com uma conotação que dá a atender uma amenização de realidade para algo que não é um defeito.

Qual é o problema de chamar uma mulher de PRETA?
Preto não é xingamento! Preta é a cor da pele e isso é perfeitamente normal.

Nesse sentido, não é curioso que em uma sociedade em que a maioria das pessoas têm a pele em tons de preto, haja uma alternativa no censo para embranquecer a identificação?

Há também situações no dia a dia em que pessoas enfrentam comentários de terceiros tentando descaracterizá-los como pretos, como se a pele escura fosse algo negativo.

“Estão tentando me embranquecer porque acham que me sinto ofendida em me chamarem de negra? Não entendo!” – Lua

Como você se reconhece é uma questão pessoal sua. Mas, independente disso, é essencial compreender que seja qual for a sua cor, ela é linda e não é uma ofensa!

“Eu sou negra, não sou morena. Morena é branca de cabelo preto. Existem diversos tons de negro. Não é só porque eu não uma negra retinta, que é aquele azul que a galera fala, que eu não sou negra. Negro não é ofensa!” – Lua

Você sabe a origem dos termos usados para amenizar a identificação de uma
mulher como PRETA?

“É uma cor, não é preconceito. O problema está na forma e no uso da palavra. Só!”

Na TV, a mulher preta é protagonista quando são novelas de época que retratam o período escravocrata. Elas são lembradas no carnaval e personificadas na Globeleza. São as mulheres que têm suas curvas e traços hipersexualizados, ou realidades representadas por status sociais inferiores.

“Porque as mulheres negras tem papel principal pra fazer a globeleza estereotipada e pelada e não pra ser protagonista da novela das 9?” – Alana Cunha

“Na televisão sempre era a negra escrava.” – Alana Cunha

A CADA 100 NOVELAS PRODUZIDAS NO BRASIL, APENAS 1 TEM UMA MULHER PRETA COMO PROTAGONISTA.

Mas a ausência de representatividade vai muito além da teledramaturgia. Na literatura, apenas 40% das personagens principais são mulheres e dentro disso, somente 20% são pretas².

A CADA 100 PERSONAGENS PROTAGONIZANDO UM LIVRO NACIONAL, SÓ 8 DELES SERÃO MULHERES PRETAS.

No cinema nacional, somente 2% dos diretores são pretos, mas nesse recorte não existe NEM UMA mulher³.

Dentre as produções brasileiras que alcançaram as maiores bilheterias entre 2002 e 2014, 31% tinham no elenco atores pretos, quase sempre interpretando papéis associados à pobreza e criminalidade.

Quantas das imagens que você
visualizou são pessoas pretas?

Os brinquedos que imitam formas humanas têm a peculiaridade de serem pensados para expressarem uma imagem fiel de quem somos.

Nesse sentido, você já parou para se questionar o que pode significar para o imaginário de uma jovem menina preta brincar com uma boneca que não é feita à sua imagem?

Já parou pra pensar que essa é uma forma de implementar, mesmo que de maneira muito sutil, um padrão de beleza na cabeça dessas crianças?

Aos 8 anos de idade eu estava na escola, em uma aula, falando o que eu tava pensando e um menino branco levanta e fala ‘Cala boca sua escrava negra’. Pra criança falar aquilo é porque com alguém ela aprendeu.” – Suelen

Isso pode plantar no subconsciente dela uma ideia de que o padrão ideal de beleza e normalidade é a branquitude, quando – na verdade – isso apenas reflete os ideais racistas que estão perpetuados culturalmente na sociedade. Ser preta é normal, mas por que não existem brinquedos produzidos e pensados para representarem esse público? Por que a garotinha preta não pode ver em sua boneca a pele escura e os cabelos crespos?

Essa falta de representatividade é uma forma velada e silenciosa de violência que massacra a sensação de pertencimento das milhares de crianças pretas que vivem no Brasil.

“Eu nunca vi uma boneca da minha cor, nunca me coloquei no mundo negro. No ensino médio vivi todo um processo de me achar feia porque era negra, mas na época eu não sabia que era por isso.” – Alana

A realidade de luta das mulheres pretas no Brasil é, de modo geral, uma sequência de batalhas contra o racismo e a busca pela superação e igualdade de forma estrutural e dentro das instituições que compõem a sociedade. Dentro do movimento há várias vertentes de atuação para chegarem a esse mesmo objetivo, são visões e modos de se posicionar diferentes.

Mas, o que todas as pessoas pretas têm em comum, é que em muitos momentos de suas vidas passam pela dificuldade de se auto-identificarem como pretas.

Isso é fruto de uma série de fatores que perpetuam a imagem do branco como o padrão ideal e valorizado. Isso cega muitas mulheres pretas perante as situações de discriminação e opressão que enfrentam diariamente.

Esse tipo de situação – infelizmente – é mais comum do que podemos imaginar. Os padrões de beleza vendidos por marcas e repercutidos pela mídia costumam focar em um fenótipo específico, que deixa de lado a maioria das características da mulher preta.

Atingir padrões de beleza vendidos como ideais já é algo difícil… Imagina alcançar padrões de beleza preta, quando o conceito ainda foge à cor da pele?

A mídia me influenciou muito na infância a me odiar. Eu tive um processo de raiva de mim mesma que foi gritante, eu odiava minha cor. Não era uma simples tristeza, eu odiava. Eu tentava de todas as formas me adaptar aos brancos.” – Lua

A beleza ideal é uma eterna busca por aceitação. Aceitação por si mesmo, aceitação pelos amigos, pela família ou pela sociedade. Mas se aceitar é um processo que pode ser muito difícil quando o espelho que a maioria das pessoas entendem como “normal” ou “ideal” é diferente do que o espelho da sua casa mostra.

E essa situação se torna ainda mais grave quando além dessa beleza comercial há o dilema de um conceito de beleza que exclui mulheres pretas simplesmente por serem pretas.

“Os mecanismos do racismo são muito mais complexos e muito mais profundos do que qualquer padrão de beleza.” – 4 Nátaly Neri

A mulher preta só é bonita quando pode ser objetificada e hipersexualizada. Os padrões de beleza causam sérios problemas em pessoas que não conseguem se encaixar. E pessoas negras – ainda – raramente são colocadas como o padrão.

Essa representação da mídia também é uma coisa que a gente vê muito. Eu não me vejo em publicidade. Quando eu vou comprar uma base o vendedor quer me vender um tom mais claro.”  – Alana

Se a gente luta é por igualdade precisamos entender por que as mulheres pretas ainda não ocupam certos lugares na sociedade. Por que a porcentagem de mulheres pretas que concluem graduação/pós graduação ainda é tão pequena?

O número de mulheres que concluem a graduação no Brasil é 38% superior ao de homens. Mas, entre essas mulheres APENAS 2,2% SÃO MULHERES PRETAS 5.

PRECISAMOS NOS INCOMODAR COM ESSE CENÁRIO E PENSAR EM COMO PODEMOS MUDAR ESSA REALIDADE.

“Você é negra e você tá ali tendo o potencial para falar a outras mulheres negras que elas têm direito de ocupar o lugar delas, independente do que as outras pessoas vão dizer.” – Manu

Em outras funções do mercado de trabalho, existe o preconceito velado, que garante às competidoras brancas benefícios implícitos a sua cor de pele, durante o processo seletivo por uma vaga. Para uma candidata branca ser boa, ela só precisa ser boa. Mas para uma candidata preta ser boa, ela precisa ser três vezes melhor que quaisquer outras que estejam no pleito.

Entrevista de emprego… Tem 3 pessoas. Uma mina loira, uma mina morena e uma mina preta. Você sabe que você vai ser inferiorizada.” – Thamyrys

Por falta de acesso à educação, fruto de uma realidade preconceituosa e opressora, as mulheres pretas buscam outras alternativas para prover seu sustento, que não requerem nível avançado de estudos.

No Brasil, mais de

%

das trabalhadoras domésticas
são mulheres pretas. 6

Pessoas pretas só ocupam 6,3% dos cargos de gerente e 4,7% do quadro de executivos nas empresas nacionais. A situação é ainda mais desigual para as mulheres pretas: 1,6% são gerentes e só 0,4% participam do quadro de executivos. São só duas, entre 548 diretores 7.

“Eu demorei muito tempo pra entender que currículo com foto e boa aparência nunca é preta”. – 8 Joyce Fernandes – Preta Rara

Hoje em dia, as favelas brasileiras são fragmentos do período pós-escravidão. As pessoas pretas foram excluídas e expulsas da sociedade, principalmente devido à inexistência de políticas públicas que permitissem a efetiva entrada dessas pessoas no convívio social. A pobreza não é apenas uma questão de classes, mas de gênero e raça também.

70,8% dos 16,2 milhões de brasileiros que vivem em extrema pobreza: são pretos! 9

E essa associação das pessoas pretas à pobreza é algo que vai além dos dados estatísticos. Está culturalmente intrínseco ao imaginário da sociedade racista que as condições aquisitivas desse público são sempre inferiores às da classe média. Nesse aspecto, comportamentos e atitudes racistas repercutem no dia a dia, agredindo pessoas pretas, com base em uma pré-definição fruto de preconceitos e racismo.

“Minha mãe foi perguntar o preço de um casaco na vitrine e o vendedor falou: é muito caro você não tem dinheiro pra pagar.” – Suelen

Quer descobrir se uma pessoa foi racista? Repare se o comentário feito aconteceria com uma pessoa branca. É muito comum ouvirmos relatos de mulheres pretas que sofreram preconceito ao serem atendidas em estabelecimentos com inferioridade. Precisamos nos preocupar com o racismo como cidadãos, profissionais, líderes de empresas, grupos, lares… enfim, em todas as circunstâncias.

“As pessoas precisam realmente parar pra pensar: como é que eu vou trabalhar em uma empresa com esses valores que não são os meus?”  –  Ana Maria

“Me deixa expressar o que eu to sentindo. A sociedade já tá me podando de todos os meios possíveis e você ainda tá falando que eu não posso me expressar da forma que eu quero?” Thamyrys

É muito fácil você questionar a legitimidade de uma causa na qual você não se insere. O preconceito é cumulativo e só entendemos a completude dele quando sentimos na própria pele.

Um homem hétero nunca saberá o que um gay sofre, um gay nunca saberá o que uma mulher branca sofre, uma mulher branca nunca saberá o que uma mulher preta sofre…

Mas a opressão à mulher preta é real e ela é comprovada em números… Elas são:

%

das mulheres vítimas de violência doméstica

%

das vítimas de mortalidade materna

%

das vítimas de violência obstétrica

%

das mulheres mortas por agressão

Mulheres pretas têm 2x mais chances de serem assassinadas do que mulheres brancas. 10

“Você não viveu o que eu vivi. Você não estava na minha pele.” Lua

Em uma sociedade ideal, seria dever de todos lutarmos para preservar vidas e direitos igualitários para viver. Mulheres pretas não são só mulheres ou pretas, são pessoas. Pessoas que precisam e merecem o reconhecimento e respeito por quem são. Pessoas que não deveriam travar batalhas diárias para garantirem direitos que as pessoas que não carregam em sua condição o gênero feminino ou cor preta são assegurados desde o berço.

E por essas mulheres precisamos abrir os olhos. Precisamos deixar de lado essa realidade de sociedade distraída aos problemas alheios, para nos tornarmos uma sociedade empática e justa.

A luta das mulheres pretas é a luta pela vida, respeito e igualdade.

No desenvolvimento deste trabalho buscamos compreender estatisticamente a realidade das mulheres pretas, para que a partir dos dados e histórias das mulheres que participaram do nosso Social Talks pudéssemos construir um conteúdo rico e que serve como base para estimular a luta em prol da NOSSA CAUSA.

¹ Censo 2016 – IBGE: https://bit.ly/2JBkY4k
² Personagens do romance brasileiro – UNB: http://bit.ly/2NxZkzc
³ Cara do Cinema Nacional – UERJ: https://bit.ly/2GlPwoQ
4 Vídeo disponível em: https://bit.ly/2n1aGzs
5 Estatística de Gênero – IBGE: http://bit.ly/2JGYnlw
6 Emprego doméstico no Brasil – Dieese: https://bit.ly/2LcHlBB
7 Pesquisa realizada pelo Instituto Ethos, divulgada em: https://bit.ly/2uyPAO3
8 Vídeo disponível em: https://bit.ly/2s1E1Mz
9 Realidade das minorias brasileiras – ONU: http://bit.ly/2LcTtSU10 Mapa da Violência – ONU: https://bit.ly/2LixlmB

Outras referências foram encontradas nas páginas:

  • Tá bom pra você? | Kenia Maria | TEDxSaoPauloSalon: https://bit.ly/2mytRS2
  • “Preto” ou “negro”? O vídeo viral que levantou um debate semântico. Por Sacramento: https://bit.ly/2LzjN69
  • Todo cacho é bem-vindo: relações públicas, capital social e a identidade da mulher preta em contexto de convergência digital: https://bit.ly/2L8D95P
Criação:
Equipe Nossa Causa | Átila Cortez, Amanda Riesemberg, Carolyne Rover, Carlos Houck, Crys Kühl, Gabriel Bernini, Giulliano Soares, Isabelle Imay, Marina Telles, Mayara Paiva, Rafael Lins, Silvia Zuconelli e Vanessa Kovalczuk

Direção & Edição:
Silvia Zuconelli

Redação:
Crys Kühl

Designer:
Isabelle Imay

Idealizadoras:
Ana Maria
Alana Cunha
Emanuelle Carneiro
Luana D’Ávila
Suelen Matos
Thamyrys Baptista

Iniciativa:

Nossa Causa
Diz que não é racista, mas…